Tuesday, December 27, 2016

Rogue One: Uma História de Star Wars Poster

Rogue One (2016) - A confirmação do adeus a "Star Wars"

Cresci a ver a "Guerra das Estrelas", desde o primeiríssimo original de 1977, até ao Regresso de Jedi (1983), passando pelo icónico Império Contra-Atraca (1980). Era um entretenimento novo, divertido, com ação de ponta, personagens a sério, enredo q.b., e as doses certas de drama e controvérsia corporizadas na revelação "I am your father" de Darth Vader em Império Contra-Ataca. O imaginário das crianças, adolescentes e adultos preenchia-se com uma galáxia de sci-fi/fantasia nunca antes vista.

Passadas várias décadas, e na sequência das prequelas que foram destruindo as notas de profundidade e originalidade da galáxia pensada por George Lucas na década de 70, torna-se penoso (principalmente para um fã dos "originais") assistir a este "episódio de preparação" da Guerra das Estrelas de 1977, patrocinado e formatado pela proprietária Disney, com o "visto" do (agora) "gestor/acionista" Lucas: personagens despidas de conteúdo, previsíveis e "recicladas" de outras pensadas naqueles primeiros filmes (sem prejuízo dos bons atores que as interpretam), uma história de "verbo de encher" que se adivinha a cada passo que a narrativa toma, cenas de ação desprovidas de intensidade e com efeitos de "pirotecnia" mais do que vistos e de duvidosa qualidade (por vezes, pisquei os olhos para ver se aquelas naves todas não eram feitas de 'legos'...). Safam-se o Robot e a sombra do mítico vilão Darth Vader na tela. O resto é um exercício de trasladação do corpo de "Guerra das Estrelas" para os efeitos especiais CGI e os desenhos animados exclusivamente infanto-juvenis, como é, aliás, comprovado pelo "boneco virtual" da Princesa Leia que pontua a cena final.

Depois do adeus ao que "Star Wars" significa, resta esperar pelos novos filmes da sequela (episódios VIII e IX), com a "new hope" de que, ao menos, sejam bons filmes de entretenimento.
 
 



Wednesday, November 30, 2016





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Elle (2016) - A brilhante Isabelle Huppert 


Provocador, mordaz e irónico. É assim o novo filme de Paul Verhoeven, o septuagenário realizador holandês, autor de controversos / emblemáticos filmes como "Robocop" (1987), "Total Recall" (1990), "Basic Instinct" (1992), "Showgirls" (1995), "Starship Troopers" (1997), "Hollow Man" (2000) e "Black Book" (2006).

Ao realizador juntou-se neste filme, de produção alemã e francesa, a atriz Isabelle Huppert no papel da empresária Michèle, num dos seus melhores desempenhos em cinema. Já lhe conhecíamos o talento ímpar do vasto elenco de filmes em que participou (bem como de peças de teatro). Lembremos, por exemplo, a interpretação em "A Pianista" (2001). Em abono da verdade, deve-se muito - ou quase, na íntegra - à atriz a 'qualidade' que se reconhece ao novo filme de Verhoeven.

Em "Elle", a declarada misoginia que perpassa o enredo suporta a afirmação de uma indestrutível força feminina corporizada na personagem de Michèle. Ela supera e vinga a agressão bárbara que sofre na sua intimidade, sela com superioridade moral a relação traumática com o seu Pai, desafia com frieza e humor as adversidades físicas e psicológicas na sua esfera profissional, e ultrapassa, com indiferença, as dificuldades das relações sociais que estabelece.

Neste quadro de relações humanas, Verhoeven deixa traços de sátira ao tema da igualdade de géneros (retratado também, p.ex., em "Instinto Fatal"), como se esta apenas fosse alcançada por "equilíbrio de extremos". As atitudes psicóticas de Michèle em relação aos homens que a rodeiam serão, assim, atos de equílibrio nas relações de poder entre os sexos. Nunca sem perder, porém, um particular sentido de humor (negro) e um perverso encanto da personagem que suavizam, aqui e ali, a crueza e violência reveladas.

Não sendo fácil de digerir, "Elle" marca o cinema de 2016 pela sua controvérsia e capacidade de provocar, chocar e fazer rir, tudo ao mesmo tempo.

Saldo positivo, em particular pela performance de Isabelle Huppert.

Trailer:   
http://www.imdb.com/video/imdb/vi3770398233?playlistId=tt3716530&ref_=tt_ov_vi

 


Tuesday, November 22, 2016


The Neon Demon - O Demónio de Néon Poster

The Neon Demon (2016) - A prevalência da forma sobre a substância


A "imagem de marca" dos filmes de Nicolas Winding Refn encontra-se presente na sua nova obra: o foco intenso na composição estética e musical, assim como na componente de violência gore. No entanto, e ao contrário do que acontece em "Drive" (2011), a "história" que se pretende contar (se é que se pretende contar alguma coisa...) é demasiado curta e pobre, o que é bem patente nos "bocejantes" diálogos que a sustentam.
      
Assim, para além da evolução de "caracterização" (essencialmente estética) da personagem Jesse (Elle Fanning), pouco mais se aproveita neste demorado videoclip... É verdade, a banda sonora tem "pinta", mas parece-nos desfasada e demasiado "suave" para o filme que pretende ilustrar...especialmente se o virmos num confortável sofá bem apetrechado de almofadas, o sono é uma probabilidade forte.

Não que alguns momentos (como a "golden paint shoot") não sejam visualmente primorosos e, até, originais. O problema é que o filme reduz-se, na essência, a isso. Aliás, o trailer, ao som do hipnotizante "techno" de Julian Winding (Demon Dance), parece ser (e é) melhor do que o próprio filme porque, em versão curta e estimulante, é suficiente para revelar o tema subjacente da crueldade do 'mundo da moda'...

Enfim, recomenda-se apenas para quem queira ver um exercício puramente estético.


http://www.imdb.com/video/imdb/vi1874048025?playlistId=tt1974419&ref_=tt_ov_vi



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Whiplash (2014) - Desafiar os limites para a perfeição


O jovem realizador Damien Chazelle, autor de "10 Cloverfield Lane" (2016), assina esta sua primeira longa-metragem, de grande porte dramático, com brilhantes interpretações de J.K. Simmons (Professor Fletcher) e de Miles Teller (Andrew).

A concretização do imenso potencial reconhecido ao ambicioso e sonhador jovem baterista Andrew constitui a justificação para o início, no Conservatório, de um processo "pouco ortodoxo" de aprendizagem conduzido pelo Professor Fletcher. Levado por este aos seus limites físico e psicológico, Andrew ultrapassa as expectativas do seu mestre quando, motivado pela raiva e iminência do fracasso, realiza todo o seu potencial com um solo de bateria ímpar a pautar o desfecho do filme.

Parece-nos um dos melhores filmes dos últimos anos, pela qualidade superior do argumento, assim como pelo magnífico "ambiente musical" retratado e desempenho dos atores.

J.K. Simmons venceu - diríamos, merecidamente - o Óscar de melhor ator secundário (2015).

Recomenda-se.









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Under the Skin (2013) - Ficção científica ao "estilo" de Kubrick


Jonathan Glazer, argumentista e realizador de filmes como Sexy Beast (2000) e Birth (2004), entra no campo da ficção científica com muitas referências ao universo visual e simbólico de Kubrick (diríamos, 2001: Space Odissey).

É marcante o desempenho de Scarlett Johansson na pele de um ser misterioso - alienígena (?) -  que inicia um processo de humanização gradual através de um "particular" ritual de sedução que, por razões desconhecidas, estabelece com vários homens.

Envolvência estética e sonora muito interessante, sendo o argumento codificado o traço mais discutível de um filme que, por vezes, parece demasiado auto-contemplativo.

Saldo positivo!

http://www.imdb.com/video/imdb/vi2666834713?playlistId=tt1441395&ref_=tt_ov_vi
 
 




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Drive (2011) - "A real hero"

O argumentista, produtor e realizador dinamarquês Nicolas Winding Refn assina um filme neo noir  com um soberbo aprumo estético, enredo simples e cativante, violência quanto baste, e uma magnífica banda sonora pontuada por Cliff Martinez, College e Desire.

O 'Driver' (Ryan Gosling) é uma entidade desumanizada, misteriosa e solitária. O enorme talento para conduzir vale-lhe a "profissão" de stunt driver e a ocupação de condutor de fugas de assaltos.
Em Irene (Carey Mulligan) e Benicio (Kaden Leos) encontra a razão de existir e o caminho para se tornar um ser humano real e o verdadeiro herói de cinema.

Muito provavelmente, um futuro 'clássico' do cinema.

Recomenda-se!

Trailer:
http://www.imdb.com/video/imdb/vi2772212761?playlistId=tt0780504&ref_=tt_ov_vi

   

Sunday, February 13, 2011

Black Swan (2010) - O cisne perfeito


Natalie Portman (no papel de Nina) realiza uma interpretação fulgurante no recente filme de Darren Aronovsky, realizador americano que já nos presenteou com importantes filmes como Pi (1998), Requiem for a Dream (2000), The Fountain (2006) e The Wrestler (2008).

Ao som do conhecido "Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky, a personagem de Nina invade-se pela busca obsessiva da perfeição. A sua ansiedade de aceitação a partir dos outros arde num rastilho que se mostra curto. Nina não sabe verdadeiramente quem é, mas apenas o que as pessoas vêem de si no palco, nos ensaios, nas mudanças de camarins, nos cortejos e elogios do seu Professor, ou na intimidade asfixiante com a sua Mãe. Neste contexto, e em conflito com a sua natureza humana, finita e limitada nas suas virtudes, Nina começa a descobrir o cisne negro que vive em si.

Na verdade, o cisne branco que sempre interpretou, gracioso e puro, não vive sozinho no mundo. Ao seu lado, o cisne negro baila com desejo, sedução, sede de aventura, prazer pelo desconhecido e pelo moralmente questionado ou incorreto - o necessário "complemento" para a inalcançável perfeição da acção quando ambos os cisnes encarnam, finalmente, na mesma personagem...

Um filme supreendente, com Natalie Portman no seu melhor, vencedora do Óscar de melhor actriz.
A ver!

Sunday, June 13, 2010



El Segredo de sus Ojos (2009) - História de uma vida...cheia de nada?


Benjamin Esposito (Ricardo Darín) não consegue resolver o caso de homicídio que mais o marca na sua vida profissional. Nem consegue expressar o que sente por quem mais ama. Por detrás do silêncio reside a angústia. Na luz do olhar mudo respira o segredo de quem anseia por uma vida...mais cheia.

Baseado na obra literária de Eduardo Sacheri "La pregunta de tus ojos", este filme marca o cinema de 2010 pelo brilhantismo do argumento adaptado e desempenho dos actores. Na mistura de géneros - policial, thriller, drama, comédia - ganha o virtuosismo peculiar que o distingue. Vencedor de um Goya 2009 para melhor filme do ano e do Óscar 2009 para melhor filme estrangeiro.

Recomenda-se!

Trailer:  http://www.youtube.com/watch?v=GcHkTSqeGoU
Site oficial: www.elsecretodesusojos.com





  

Wednesday, May 12, 2010


District 9 (2009): Um "documentário" de ficção científica

District 9 não é real como parece. Nem tão ficcional como pretende. Na confusão de géneros, o mistério subsiste...permanece entranhado na pele quando surgem os créditos finais. Será que algures no nosso mundo existe uma realidade assim?

No District 9 a vida é tão miserável como num qualquer subúrbio decadente dos dias de hoje. A esperança respira-se em instantes fugazes, constrói-se diariamente na obscuridade. No District 9 a Humanidade nega-se a cada passo, volta as costas à sua essência afectiva, veste a pele da barbaridade, sem vergonha.

Um "documentário" de ficção científica politicamente incorrecta é o que encontramos em District 9, com um excelente desempenho de Sharlto Copley, no papel principal.


Recomenda-se!

Friday, April 18, 2008


 Javier Bardem in Este País Não É Para Velhos (2007)Josh Brolin in Este País Não É Para Velhos (2007)Este País Não É Para Velhos (2007)

No Country for Old Men (2008) - Ar fresco em Hollywood


Muito agradável surpresa. Não é o filme feito para o brilho "fácil" dos actores, nem para servir o apetite aos moralistas conservadores da Academia. Aliás, o formato e conteúdo não revela o potencial típico "oscarizável": originado numa produção independente, integra uma mistura de géneros (thriller, western e film noir) e deslumbra com os planos, montagens, ritmo e singularidade do argumento da autoria de Ethan e Joel Cohen.

Notas brihantes para as interpretações de Javier Bardem e Josh Brolin e para os primeiros 20/30 minutos do filme que, literalmente, "prendem o espectador à cadeira".

Recomenda-se!!

Saturday, September 02, 2006


Mulholland Drive [2001]- O sonho que comanda a vida?

Parece consensual afirmar que o universo cinematográfico de David Lynch é, na sua generalidade, abstracto. Tal como o próprio realizador refere, o seu cinema "assemelha-se à música"... Uma composição de elementos, não necessariamente visuais, aos quais não ficamos indiferentes. David Lynch criou um 'cinema-intuitivo/transcendente' que não se pode apreciar segundo a pura razão. O sentido último de um filme de Lynch não é aquele que decorre das imagens e sons que vemos e ouvimos mas sim daquilo que somos capazes de construir a partir desses elementos.

Mulholland Drive representa, na sua plenitude, o modelo de cinema intuitivo/transcendente de Lynch. Aborda uma história de paixão, procura de realização de sonhos, inconformismo com a normalidade e frustrações da vida. Aspectos comuns na vivência diária em Hollywood? Características de um modo de vida de promissores actores que não toleram a indiferença, o segundo plano, ou o sucesso e impacto das grandes figuras que conseguem vingar e alcançar o estatuto de ícones do cinema? Será, então, Mulholland Dr. uma metáfora representativa do  caminho "sinuoso" para alcançar esse estatuto?... Talvez sim, talvez não. No final de contas, trata-se de um filme profundamente misterioso no seu sentido, no melhor registo que caracteriza a obra cinematográfica e televisiva (recordamos, por exemplo, "Twin Peaks") do realizador David Lynch.
Apesar de controverso, ninguém lhe consegue ficar indiferente...

Recomenda-se!

http://www.mulholland-drive.com/

Thursday, May 18, 2006


The New World [2006] - Um 'banho sensorial'

O  argumento é interessante e a fotografia é muito boa. Os primeiros dez minutos de fita são - no mínimo - estonteantes... Rapidamente o espectador é convidado a entrar no "universo reflexivo" do realizador Terrence Malick, autor de filmes marcantes como Badlands [1973], Days of Heaven [1978] e Thin Red Line [1998].

No entanto, talvez tenha faltado um pouco de contenção na quantidade de 'planos-ambiente', detalhes gráficos e sequência de imagens e sons que Terrence Malick tanto gosta de introduzir nos seus filmes. A - pensamos - excessiva "contemplação" da natureza e da personagem interpretada pela jovem actriz Q'Orianka Kilcher tornam-se, por vezes, redundantes, produzindo o efeito inverso àquele que o realizador procurou alcançar - o de criar momentos de reflexão e simbologia. O retrato da sociedade indígena organizada e desprovida de malícia sai, talvez, um pouco "aborrecido" com a forma repetitiva com que Malick 'embrulha' o conteúdo fascinante que o filme apresenta.
Por outro lado, e num plano estritamente subjetivo, diríamos que Colin Farrel - na personagem do Capitão John Smith - consegue levar-nos ao bocejo. A ausência de expressão corporal enfraquece, em medida relevante, o potencial deste filme.

Ainda assim, o saldo é positivo e o dinheiro bem empregue. Talvez o pior de tudo fosse facilmente evitável...

Bom filme!




http://www.thenewworldmovie.com/

Tuesday, April 25, 2006


The Shining [1980] - Um épico do terror


No fim de semana passado decidi revisitar um filme que considero ser uma autêntica «jóia» do género 'terror'.
Não será o género que mais me interessa; no entanto, quando vi o 'The Shining' pela primeira vez fiquei rendido à evidência de que pode ser um género fascinante.
Neste filme, esta possibilidade decorre do génio de quem dirige e compõe a obra (Stanley Kubrick). Aquele que coordena a sequência das imagens, o enquadramento das personagens nos planos, a incidência dos sons na narrativa e a gestão do silêncio em momentos cruciais. Por vezes, uma qualquer acção aparentemente ordinária torna-se  numa cena arrepiante: a voz "bizarra" do amigo imaginário de Danny (Tony), a inesperada história que assombra o Hotel e os cenários tétricos do quarto proibido (room 237...) são alguns dos elementos de desconforto que, lentamente, ao longo do filme, contribuem habilmente para um ritmo em 'crescendo' de tensão que, no final, culmina com a inesquecível perseguição no "labirinto gelado".

Kubrick consegue, logo na sequência lindíssima de planos inicais, prender o espectador à cadeira. A música provoca uma desfasamento imediato de sentido e intenção com a imagem que vemos - repare-se que a melodia e os sons que a acompanham não figuram uma cadência regular ou contínua... há sempre uma nota, um som, um acorde que destoa, ou que não se adivinha. Ao mesmo tempo que se cria uma conjugação "som-imagem" de"intriga" e suspense, a nossa atenção é, num primeiro momento, centrada no veículo onde Jack Torrance (interpretado por Jack Nicholson) segue e, posteriormente, num segundo momento, no Edifício do Overlook Hotel. Estão identificados dois dos personagens principais: O vilão Jack e o Hotel, ou... melhor, a 'vida' que neste 'brilha' . Isto é, para aqueles que a conseguem ver...

Visualmente inesquecível, é um filme exemplar no que respeita ao trabalho de "adaptação" ao cinema da obra literária de Stephen King. Dentro do género, não haverá, com certeza, muito melhor.

A ver!

Monday, March 20, 2006


Crash [2004] - Do afastamento à reconciliação



Até chegar à realização de "Crash", Paul Haggis só tinha feito trabalhos para televisão, principalmente como argumentista.
E foi nesta qualidade que já deu provas de ter mente fértil. Recentemente colaborou no argumento de "Million Dollar Baby", de Clint Eastwood.

"Crash" é um filme com uma narrativa descontínua onde a discriminação racial é o tema de fundo. Com o desenrolar da fita abrem-se portas a outros temas ou sub-temas associados, como o progressivo isolamento, afastamento e dispersão das pessoas em sociedade ou o encontro do 'amor' como elemento unificador no combate ao medo e à violência.

A "colisão" a que o filme alude no seu título é, sem dúvida, um mote bem sugestivo. O medo que nos priva do contacto com "aquilo" ou aqueles que receamos, também nos priva de tudo aquilo que nos pode aproximar dos outros. E, assim, por vezes, não conseguimos evitar que, no propósito de evitar aquilo que desconhecemos, seja porque motivo for, entremos em rota de colisão com algo... - no fundo, a sempre oportuna 'chamada de atenção' para um sentimento superior, seja ele um abraço, um acto heróico do mais puro altruísmo, um reconhecimento de um erro ou a reconciliação consciente com o passado.

Uma nota de apreço para a banda sonora que, tal como sucede em "Magnolia", contribui para uma sequência de cenas no final cheia de significado e força.

Filme vencedor do Óscar de Melhor Filme do Ano em 2006.

Friday, November 11, 2005








Stanley Kubrick: Imagens que não se esquecem...





Spartacus (1960)

Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964)


2001:SPACE ODYSSEY 1968

The Shining (1980)






Eyes wide shut (1999)




Barry Lyndon (1975)



A Clockwork Orange - 1971




Stanley Kubrick nasceu a 26 de Julho de 1928 em Nova Iorque. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, dedicou-se ao cinema começando pela realização de filmes amadores em 16mm, o mais conhecido chamado Day of the Fight ( 1948). Enveredou pelas curtas metragens, realizando Fear and Desire ( 1953) que foi, na altura, uma fracasso financeiro. Kubrick não desanimou e continuou a fazer aquilo de que gostava mais: realizar "cinema" em múltiplas vertentes - produtor, director artístico, director de fotografia, responsável pela montagem... e continuou em Killer's Kiss (1955) e mais tarde no seu primeiro verdadeiro sucesso na crítica, The Killing (1956), o primeiro de uma série de 11 filmes inesquecíveis que nos deixou para vermos, revermos e retermos na memória.



http://kubrickfilms.warnerbros.com/mainmenu/mainmenu.html

Sunday, October 09, 2005


"Alice" [2005] - Por onde andas?


É sempre bom constatar que existem bons filmes portugueses, bons actores e uma boa adesão por parte dos espectadores às produções nacionais ( como reparei no dia de estreia do filme). O ponto importante aqui é o filme ter, de facto, qualidade. É com agrado que se vê um filme português, de um realizador estreante ( Marco Martins), muito promissor, a ser premiado num dos grandes palcos do cinema mundial: Veneza. É também um sinal de incentivo a todos os produtores, realizadores, actores de que, com poucos meios, se podem fazer grandes filmes.

"Alice" é um filme triste e cru. Representa a perda de alguém que se ama muito, de forma transparente e sem subtrefúgios. O "olhar a nu" transmitido, ao longo do filme, pelos demorados grandes planos do pai Mário (Nuno Lopes) e da mãe Luísa (Beatriz Batarda) é asfixiante. O espectador "vive", também, um momento difícil, durante 102 minutos de "procura obssessiva" pela filha Alice.

A fotografia pareceu-nos muito boa, oferecendo um retrato, porventura, diferente de Lisboa... Em tons frios e anónimos, condizentes com a perspetiva que Mário tem da cidade: um lugar apenas composto por ruas, carros, ruído e pessoas...muitas pessoas "desligadas" umas das outras.

Vive-se, no decurso do filme, o sentimento de alguém que perde uma filha e não aceita o convívio com a sua ausência, procurando (através da rotina obssessiva de vigilância e repetição) encontrar, no meio da multidão, alguém, um vulto, um casaco azul, ou os cabelos castanhos de Alice.

A forma como Marco Martins estrutura o filme (de modo circular e rotineiro) obriga-nos, também, aqui e ali, a procurar Alice, entre as muitas pessoas que aleatoriamente circulam em redor de Mário; cerceando as expectativas do pai na sua busca e agudizando a dor da mãe na sua resignação.

No final, as dúvidas permanecem mas a clareza dos factos chega-nos fria e dura de aceitar: a realidade é assim fielmente retratada - não há revelações de última hora, não há reviravoltas engendradas. O que existe é a vida como ela é perante uma ausência que "lhe passa ao lado" porque, precisamente, já não existe. A "ausência" está por todo o lado, rodeia Mário em todos os seus movimentos. É um facto que escapa à esperança recriativa do homem.
Mário perde, de facto, a sua filha... mas ganha de novo a sua mulher e, com ela, mais um fôlego para viver.


"Alice" conta a história de um pai, Mário ( Nuno Lopes) e mãe ( Beatriz Batarda), que desde o desaparecimento da sua filha de 4 anos há 193 dias, procuram viver as suas vidas na esperança de reencontrar Alice. Assim sendo, todos os dias, Mário, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que Alice desapareceu."


A ver, sem dúvida alguma.


http://www.madragoafilmes.pt/alice/

Sunday, September 18, 2005


Red Eye [2005] - Revisitar o thriller...

Wes Craven, realizador de filmes como "The Hills Have Eyes"[1977], "Nighmare on Elm Street"[1984], "Scream" [1996] e "Music of the Heart" [1999], apresenta entre nós um thriller psicológico a bordo do avião que faz o último voo que atravessa os EUA coast to coast. Wes Craven consegue gerir muito bem o tempo ao contar a história, criando uma fluidez de acontecimentos muito agradável até às cenas de 'tensão' a bordo da aeronave. Aqui, toda a capacidade do 're-inventor' do género de terror se revela, em crescendo, muito eficaz no suspense que cria.

Notas positivas para os actores Cyllian Murphy (com o olhar mais 'gélido' do cinema actual), quer Rachel McAdams ( que 'enche' o écran com a sua presença ), ambos com performances de grande qualidade, dentro do género cinematográfico em que Red Eye se encaixa - o thriller.

Dentro do género, recomenda-se!


http://www.redeye-themovie.com/
http://www.wescraven.com/
http://www.rachel-mcadams.com/












Tuesday, August 30, 2005




"The Island" [2005] - o cinema de acção vem por aí abaixo?


Chegou às nossas salas de cinema mais uma mega-produção americana com o carimbo de realização de Michael Bay, perito em filmes "flashy", campeões de bilheteira. O realizador americano já tem no curriculum Bad Boys [1995], The Rock[1996], Armageddon [1998] e Pearl Harbour[2001]. Pode dizer-se que o ex-realizador de videoclips tem um estilo próprio dentro da categoria 'cinema de acção': privilegia o argumento simples, personagens pouco densas, e muita energia, explosões, capotamentos de viaturas, tudo muito, muito rápido, como se de um flash ininterrupto de imagens o filme se tratasse...

É claro que, por vezes, sabe muito bem ver um puro filme de "entretenimento". Sabe muito bem ver aqueles 'clássicos séries B'. O problema é que os filmes de acção de hoje já pouco ou nada satisfazem - as ideias estão gastas e temos sempre o 'feeling' de que "já vimos aquela cena em qualquer lado...". Por isso é que quando "The Matrix" [1999] surgiu, uma revigorante lufada de ar fresco 'ventilou' a memória cinematográfica das pessoas que redescobriram as potencialidades do filme de acção e ficção científica. Era diferente, interessante e, sobretudo, divertia.

Infelizmente, "The Island" [2005] confirma as expectativas que um espectador regular de cinema tem quanto a uma mega-produção americana: as de que "pode" eventualmente ser mais um filme igual a tantos outros.

Aspectos positivos do filme: Cenas de acção bem feitas, embora sempre em 'ritmo de flash' constante que enerva e cansa. Se pudesse, aconselharia Michael Bay a rever as sequências de acção que podemos encontrar em "Heat" [1995] de Michael Mann - perceberia logo que 'quantidade' não é sinónimo de 'qualidade'.

Aspectos negativos: o filme tem duas partes - antes e depois da fuga de Lincoln Six-Echo ( Ewan McGregor) e Jordan Two-Delta (Scarlett Johansson) da sociedade "controlada" em que vivem.

Na primeira parte domina a caracterização das personagens, cenários e guarda-roupa dentro de um «espaço» atentamente vigiado, em que todas as acções humanas são medidas, perante a passividade e ausência de interrogações dos habitantes que se movem como se de meros robôs se tratassem. Lembrei-me imediatamente de duas referências (uma literária e outra cinematográfica) que tão bem exploram o tema subjacente ao filme - "O Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley e "THX 1138" de George Lucas. Não sendo sequer comparável, "The Island" 'toca de raspão' em temáticas interessantes como a liberdade ( que se manifesta através da inquietude pelo conhecimento, pela realização pessoal e social) vs. opressão/totalitarismo ( evidenciando o Sistema, o Poder, os determinismos que sempre estão presentes numa sociedade organizada). É claro que tudo isto é muito interessante e pode dar 'pano para mangas' numa reflexão mais cuidadosa - o objectivo "cinematográfico" em 'The Island' nunca poderia ser esse. Mas tão pouco Michael Bay explora as potencialidades que a história que conta possui. A abordagem é artificial e superficial demais para além de, mais uma vez, não ser novidade.

Na segunda parte do filme, tudo vem por ali abaixo num desnorte de cenas previsíveis que só contribuiram para que chegasse ao final com uma desagradável dor de cabeça.

Não se recomenda!

http://www.theisland-themovie.com/









Sunday, August 14, 2005

Charlie and the chocolate factory [2005] - A fábrica de chocolates de Tim Burton







 "Charlie and the chocolate factory" é o último filme de fantasia realizado por Tim Burton, autor de filmes como  "Beetlejuice" (1988), "Batman" (1989) e "Batman Returns" (1992), "Edward Scissorhands" (1990), "Ed Wood" (1994), "Sleepy Hollow" (1999) e "Big Fish" (2003).

Depois de um não tão bem recebido "Planet of the Apes"(2001), Tim Burton só podia realizar uma fita que confirmasse o bom momento que atravessa desde o brilhante "Big Fish"(2003). 

Na adaptação para o écran do conto de Roald Dahl, o 'soturno' de Burton ficou mais ameno embora ainda presente nesta aventura de Charlie (interpretado pelo promissor Freddie Highmore) na fábrica de chocolates de Willy Wonka (Johnny Depp).
 
Burton consegue pegar na obra de Roald Dahl e dar-lhe um cunho muito pessoal, quer ao nível estético dos cenários e guarda-roupa, quer ao nível da caracterização das personagens e de adaptação do argumento. A história de Charlie Bucket tem traços de semelhança com o universo de Charles Dickens. Burton retira-lhe a simplicidade e a evidência que o conto para crianças apresenta reforçando a 'moral dos valores' astutamente « insuflada » nas personagens das 5 crianças que são admitidas a entrar na fábrica de chocolates e nos 5 pais que as acompanham durante a visita guiada por Willy Wonka.

Johnny Depp dá corpo a um personagem que se insere de forma perfeita no universo cinematográfico de Tim Burton - a mistura de componentes do imaginário infantil com elementos soturnos e assustadores. Desta mescla de elementos estéticos surge um 'terceiro género' que teletransporta os espectadores para um outro plano, em que tudo parece ter um significado muito próprio e em que tudo parece ser possível.

Resta-nos agora esperar pela sequela, "Charlie and the Great Glass Elevator".


http://chocolatefactorymovie.warnerbros.com/
http://www.timburtoncollective.com/
http://www.johnnydeppweb.com/


Bom filme!